2.000 km, um sonho e nenhuma vaga


Quanto vale um sonho? Qual sua disposição para conseguir um trabalho? Quanto está disposto a investir em nome de uma grande oportunidade? Essas são questões que nos fazemos diversas vezes durante a vida profissional. E eu, como não sou diferente de ninguém, já fui atrás de um sonho no passado, que se transformou em frustração e numa grande lição de vida.

Era um dia de trabalho qualquer, quando recebi um telefonema. Demorou poucos segundos para eu perceber que aquela ligação tinha potencial para mudar minha vida de ponta cabeça. Sim, era uma gigantesca empresa multinacional, uma das melhores e mais admiradas do meu setor de atuação. Acharam-me de alguma forma pela internet, e se interessaram por mim. Fui tomado de uma euforia digna daquelas que sentimos poucas vezes na vida. Eles queriam que eu fosse conhecer a fábrica deles, a mais de 900 km de distância, e meus problemas acabavam de se iniciar, mesmo sem que eu tivesse consciência.

Combinamos uma data, acertamos detalhes importantes e a primeira surpresa de minha parte! Disse a recrutadora: “então, é tudo por sua conta, viu? Nossa empresa entende que se o candidato tem interesse de trabalhar conosco, deve estar disposto a vir aqui e participar do processo.”. Confesso que estranhei muito. Puxa vida, uma multinacional desse porte, não querendo gastar dinheiro para entrevistar um candidato a uma vaga importante?! Achei bastante peculiar, mas estava tão afoito em não perder a chance de concorrer, que aceitei sem hesitação.

Gastei preciosas milhas aéreas, paguei estadia em hotel, aluguei carro, fiz várias refeições, abasteci o automóvel diversas vezes, tudo em nome do sonho de pertencer a essa grande corporação. Fui muito bem tratado, confesso. A fábrica era no meio do nada, mas era linda e novinha em folha. Imaginei-me trabalhando por ali, mas não via com bons olhos o sacrifício que minha família teria que fazer me acompanhando até aquele rincão de Minas Gerais. Enfim, aquele era um problema para depois. Após as entrevistas na fábrica, pediram-me para ir a BH, fazer uma outra entrevista com a diretora de RH. Ok, eu tinha vindo por ali mesmo, e não teria maiores problemas em fazer uma pequena pausa na bela capital mineira. Mas não poderiam ter avisado antes? Decidiram aquilo na última hora?

A diretora de RH não me atendeu! Uma pessoa viaja quase 1.000 km para participar de um processo seletivo, e simplesmente não é atendida. Que pena! Ah, mas ela encaminhou a estagiária para me entrevistar. Ela, pega de surpresa, veio com uma folha em branco e começou a me pedir para desenhar isso, desenhar aquilo. Desculpem-me os psicólogos, mas tenho muita dificuldade em aceitar este critério, que não me diz como consegue avaliar a competência de um engenheiro em sua área de atuação profissional por meios gráficos! Enfim, voltando à entrevista, obviamente, fiz tudo que me pediram, mesmo pê da vida com tamanha falta de consideração pela minha pessoa.

Voltei super frustrado para casa, lógico. Perdi meu tempo. Gastei meu suado dinheiro, e nem um pão com mortadela recebi de uma das maiores corporações globais, que deve lucrar por minuto, o que demoro muito para receber trabalhando. Arrisquei-me nas perigosas estradas mineiras. E pior, não fui contratado. Também não soube o motivo. Legal, né? Será que se tivessem me entrevistado por Skype, ou me pedido para fazer os desenhos no Paintbrush do computador e enviado por e-mail, não teriam me poupado de gastar tantos recursos? Olha, se tudo isso tivesse sido bancado com o dinheiro da empresa, talvez eu não tivesse me frustrado tanto, afinal, ninguém tem obrigação de gostar e contratar qualquer que seja o candidato, mas, puxa vida, convenhamos, eu gastei uma grana preta nessa brincadeira! Dinheiro que me fez falta depois. Entretanto, o aprendizado valeu muito.

Aprendi que um emprego é uma relação de benefício mútuo, entre profissional e instituição. É uma parceria na qual ambos devem sair ganhando, mesmo que seja uma corporação de cem mil indivíduos frente a uma só pessoa. Não importa! Um depende do outro, e não deve existir a frase “se tiver interesse, se vire para vir até nós”. Ou estão juntos, ou não. Ou se ajudam, ou não. Ou são interdependentes, ou não! Emprego para mim, hoje, é isso e não abro mão!

Eng. William Mazza

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Um comentário em “2.000 km, um sonho e nenhuma vaga

  1. Também já passei por isso e é realmente frustrante. Assim como a empresa escolhe o candidato, o candidato escolhe a empresa. O pior é que não é apenas o dinheiro investido na viagem, mas também o dinheiro que você deixa de ganhar pelos dias que se afastou, o desgaste com o superior do emprego atual por ter pedido uma folga e ele achar que você está interessado em sair e desmotivado para continuar trabalhando para ele. Enfim, diante da diferença de orçamentos entre um candidato e uma empresa desse porte o mínimo seria o custeio do deslocamento ou simplesmente fazer por skype. Uma vez viajei 600 km para a entrevista com o mesmo gastos de combustível, pedágio, alimentação, etc, e uma das perguntas era pretensão salarial, informei o valor mínimo pelo qual eu aceitaria me mudar. Uma semana depois me ligaram dizendo que tinham uma proposta e que só seria apresentada pessoalmente, fui porque realmente tinha interesse e eles já sabiam qual era o meu mínimo negociável. Perdi outro dia de viagem para ouvir o desaforo de um salário menor que a metade que eu havia indicado e ao recusar ainda tive que ouvir que eu provavelmente estava muito desinformado em relação a crise para recusar trabalho e dinheiro. É frustrante e deprimente depois de investir tanto tempo e dinheiro em uma boa formação receber propostas de salários “compatíveis com o mercado” tão abaixo do indicado pelo CREA. É utópico pensar que a classe deveria se unir e não aceitar baixos salários, afinal, muitos passam por necessidades e aceitam ganhar menos para não ficar sem nada, mas chegou a um ponto que as empresas estão abusando da boa vontade, temos que valorizar nossa mão de obra.

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