No final de 2011, vendo que dificilmente minha empresa teria condições de competir com as grande companhias que vinham da Europa para nosso mercado, decidi dar início a um processo de venda de meu negócio, ou quando muito de uma parceria com alguma empresa forte que desejasse entrar no mercado de óleo e gás do Rio de Janeiro.

Meu sobrinho me sugeriu fazer o que ele mesmo estava fazendo com sua empresa, ou seja, buscar um investidor estrangeiro através dos consulados desses países. Com isso, fizemos uma apresentação muito bem feita de nossa empresa e comecei a procurar alguns consulados, mas a maioria nos mostrava empresas interessadas apenas em que nos tornássemos representantes deles. O Consulado do Reino Unido foi de todos o mais atencioso conosco, e a gerente de negócios não somente veio nos visitar e fazer perguntas, como nos colocou numa relação de empresas atrativas no Brasil para investimentos. Essa relação só circulava entre empresários britânicos, mais lugar nenhum. Com isso recebi inúmeros e-mails, mas o negócio foi se aprofundando apenas com uma empresa familiar britânica, mas que ao final não vingou.

Minha penúltima esperança era o consulado da Noruega. A Noruega é o país com maior presença no mercado de óleo e gás no mundo todo e aqui também, por conta da alta tecnologia de extração de petróleo no Mar do Norte. Fui atendido no Consulado, mas lá me deram o telefone e endereço daquele  que – segundo eles – tratava de todos os interesses comerciais do consulado no Brasil. Um norueguês de nome Steffen* (nome fictício). Ele tinha e tem uma empresa de representação de muitas companhias norueguesas que vendem seus produtos no Brasil. Ele já havia sido cônsul da Noruega por alguns anos no Rio de Janeiro. Ele recebeu minha apresentação por e-mail e me escreveu se mostrando interessado em conversar, no intuito inicialmente de tentar encontrar na Noruega investidores para meu negócio. Fui ao escritório dele e conversamos longamente. Enquanto expunha os motivos que me levaram a essa busca de parceiros, ele me olhava como se estivesse penetrando a minha alma. Vivo interesse por tudo que eu dizia. Ele fez várias ponderações dizendo que minha empresa era muito pequena, mas que poderia tentar nos ajudar a crescer um pouco. De repente, mencionou ter perdido há poucos dias um colaborador muito importante, e que estava com aquela vaga em aberto. Eu, honestamente, fiquei surpreso, mas não dei bola e continuei a falar sobre minha empresa.

Quando cheguei em casa, a ficha caiu ou achei que caiu. Pensei: será que ele mencionou a saída do colaborador, me convidando para trabalhar com ele? No dia seguinte, escrevi para ele perguntando isso. Ele disse que não, mas que gostaria de me encontrar outra vez. Aí, falou que queria que eu me entrevistasse com o staff de vendas dele, cujo gerente era um animado dinamarquês. Quatro pessoas me fizeram perguntas de mercado e clientes, e ao final, rimos descontraidamente e me despedi. Poucos dias depois recebi um e-mail do Steffen, me dizendo que o staff dele gostou demais de mim, e que tinham interesse em que eu trabalhasse com eles. Em nenhum momento Steffen perguntou minha idade; onde eu morava; qual minha formação profissional; não me pediu currículo; nada. Foi puro feeling.

O mais interessante é que a pessoa que me entrevistou, e que a meu ver seria meu superior na empresa pelo seu desembaraço e tudo, me ligou falando: “Sr. Fulano, nós temos uma visita para Santa Catarina e nosso diretor quer que o Sr. venha conosco”. Tudo louco pra mim, pois tinha uma empresa para administrar e eles queriam meu tempo. Esse mesmo rapaz virou-se pra mim e disse: “Quando o Sr. quiser fazer alguma viagem comercial e quiser minha companhia, me fale sem problemas”. O cara que eu pensei que seria meu gerente me tratava como eu sendo o gerente dele. Loucura! Nunca pensei que algo assim pudesse acontecer. Steffen, em principio, queria que eu trabalhasse como colaborador deles junto com minha empresa, apresentando os negócios dele aos meus clientes. Conseguiu duas empresas na Noruega e na Alemanha interessadas em comprar minha empresa e a coisa só não aconteceu por detalhes, mas bateu na trave. Quando eu ameaçava desistir, ele dizia que entraria de sócio na minha empresa, mas que pretendia ficar com a maior parte gradativamente. Investiu dinheiro no meu negócio, colocou gente lá fazendo inventário, levantando informações e como, ao longo do tempo, a minha empresa não demonstrasse reação, desistiu do negócio, mas me chamou e disse: “Eu desisti do negócio mas não desisti de você. Você tem lugar na minha empresa”. Eu já andava cansado da minha rotina na minha empresa, e fui estreitando o caminho que me levaria a trabalhar com ele, que era o que eu queria!

Em Novembro, entrei para a empresa dele e estou aqui até agora. Adoro esse trabalho , embora seja muito exigente, mas estou me realizando. Ele tem uma confiança enorme em mim e vejo isso a cada vez que ele vem falar comigo. Procuro retribuir da mesma forma. Aí está a história de alguém que não procurava emprego e acabou conseguindo um dos melhores que poderia imaginar. Tudo isso sem falar inglês com fluência, numa empresa onde até a copeira fala inglês.

O autor desse texto preferiu o anonimato.

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