Diário de um desempregado ao sul do mundo


Tarde de terça-feira, sol e calor atípico no meio do inverno. Estamos numa capital ao sul do mundo. Carros de polícia, policiais à paisana, cavalaria. Do outro lado da praça, protestos. Definitivamente há algo errado. Mas como foi possível deixar a situação chegar nesse ponto? Há alguma saída nesse beco sem saída?

O ano é 2017, mas poderia bem ter sido o de 2016. Como um elevador que aproxima-se do andar desejado, os movimentos são muito lentos. A economia está se recuperando, dizem os jornais. A física explica que um corpo tende a manter sua quantidade de movimento. É a inércia. Logo, se está parado é da natureza física manter-se parado. Assim, será necessário ainda um esforço muito grande para que esse corpo readquira sua quantidade de movimento desejada.

Passando ao acaso no centro da cidade e presenciando protesto de sindicatos contra reformas é o pano de fundo para justificar o que um engenheiro faria no meio do horário comercial num local um tanto inusitado. Pois bem, este engenheiro foi avaliar suas condições financeiras para um novo investimento: um chip telefônico de uma cidade onde ele tem pretensões de trabalhar. Dizem que isso alavanca a possibilidade de ser convidado para entrevistas. Isso mesmo, este engenheiro engrossa as filas do desemprego.

Mas mesmo assim há que se encarar com paciência e perseverança. Só que essa não é uma crise qualquer: é uma crise na era da informação instantânea. E posto que há crise, há questionamentos. E se há questionamentos, percebe-se a fragilidade de alguns elos chaves nessa cadeia: há muitos candidatos disponíveis e poucas vagas abertas. E com tanto peixe, os recrutadores parecem muitas vezes enrolar-se para pegar os melhores peixes.

Na Rádio-Peixaria ouve-se os seguintes boatos:

– Peixe cai na rede e é descartado porque a empresa pediu x anos de experiência e idioma intermediário. O peixe tinha x-y e idioma avançado, por isso foi informado que não serviria.
– Suculento peixe na medida certa para nosso cardume, mas está em outro aquário; não vai querer vir para o nosso aquário – assumem os pescadores, sem sequer consultar o peixe.
– Pescador liga para o peixinho ansioso e cheio de vontade de trabalhar para anunciar: “tu não serás pescado; por favor, indique algum outro peixe do teu último cardume”. – E isso sem mencionar as sardinhas que são devolvidas para o mar sem saber o que houve.

Apesar de estarmos na era da superinformação e talvez pouca capacidade de processamento, ainda que muitas vezes acabem preferindo o imediatismo e preterindo uma análise de potencial dos candidatos, há que se encarar tudo isso também com bom humor. Ficar em casa à margem do mercado por si só já é muito extenuante. Então, uma boa válvula de escape acaba sendo a interação com outros pares na mesma situação. Muitas vezes uma troca de experiência acaba nos encorajando a tomar decisões que refletem em algum retorno positivo. E sendo positivo na atual conjuntura é sempre bem-vindo.

 

André Luiz Madeira

Engenheiro Eletricista

Contato: andremad@gmail.com

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